A tradição local tinha uma explicação romântica. Dizia-se que no local da casa houvera outrora um mosteiro flanqueado por um convento, e que no século XIII um monge e uma bela noviça jovem haviam sido apanhados quando tentavam fugir para casar-se. O monge foi enforcado e a pretendente a freira foi emparedada viva no convento. Para um pesquisador experiente de fatos paranormais como Price, essa deve ter parecido uma história velha e batida - os espiritos de freiras e monges, bem como as carruagens espectrais, são figurinhas repetidas nas histórias inglesas de fantasmas. Mas os fenômenos de Borley revelaram-se mais complexos.
Mais ou menos na mesma época em que Price se interessou por Borley, o casarão começou a ser alvo da enérgica atividade de um poltergeist. Sinos tocavam, luzes acendiam sozinhas e objetos voavam pelo ar. Em 1930, o reverendo Lionel Foyster e sua atraente esposa muito mais jovem que ele mudaram-se para a casa e as manifestações sobrenaturais ficaram mais frequentes. E um novo fenomeno - que Price considerou único nos anais da paranormalidade - manifestou-se: misteriosas mensagens escritas começaram a aparecer nas paredes e em pedaços de papel espalhados pela habitação.
Em 1937 - quando a construção já fora abandonada como residência paroquial, Price alugou a casa por um ano e instalou um rodízio de observadores para documentar os fenômenos. Escreveu mais tarde dois livros populares sobre o caso, dando também inúmeras palestras e entrevistas no radio sobre o assunto.
A incansável publicidade promovida por Price fez com que Borley ficasse famosa e fosse alvo de pesquisadores rivais, que por décadas se debateram com o mistério. Os detratores afirmaram que todo o caso era suspeito, zombando das técnicas de pesquisa de Price e, em particular de sua equipe de observadores amadores, recrutados por anúncios em jornais. Os críticos chegaram até a sugerir que Price houvesse orquestrado pelo menos alguns dos supostos fenômenos de poltergeist. No final, porem, o controvertido caçador de fantasmas acabou encontrando indícios de uma tragédia do passado longínquo que parecia explicar as assombrações - e convenceu muita gente de que as manifestações eram autenticas.
Logo depois de mudar-se para a casa paroguial, Marianne Foyster encontrou um velho envelope com o nome dela e escreveu: "O que quer?", colocando o envelope no mesmo lugar. A patética resposta ("descansar") apareceu debaixo da pergunta.
O reverendo Henry Dawson Ellis Bull, que se tornou pastor da igreja de Borley em 1862, não se perturbou com as histórias de fantasmas em sua paróquia e não hesitou em construir seu novo lar no local em que se dizia ser mais provável a assombração dos irrequietos espiritos da aldeia. Segundo a lenda local, a casa paroquial de Borley foi construida sobre as ruínas das fundações de duas estruturas muito mais antigas: o solar da nobre familia Waldegrave e um antigo monastério.
Em seu primeiro livro - publicado em 1940, cinco anos depois que os Foyster haviam se mudado - Price deixou implícito que desconfiava do uso de prestidigitação por Marianne para montar alguns dos distúrbios. Ao mesmo tempo, porém, afirmou categoricamente que pelo menos um dos espiritos que assombraram Borley por tantas décadas encontrou na esposa do pastor uma alma solidaria. Julgou que essa teoria era apoiada pelas arrepiantes mensagens escritas nas paredes, dirigidas a Marianne.
As mensagens, pedidos queixosos de ajuda escritos com caligrafia infantil, pareciam ser de outra mulher jovem - a qual, por suas referencias a orações, missas e incenso, fora católica. Foram pistas importantes que, como peças de um quebra-cabeça, encaixaram-se com perfeição na historia que Price acabou montando para explicar o mistério de Borley um relato macabro de assassinato e traição, cuja personagem central era uma jovem freira, mas não a da lenda local.
Durante o ano em que alugou a antiga casa paroquial de Borley, Harry Price e sua equipe não descobriram fenômenos novos, mas um acontecimento sensacional deu a Price informações para chegar a solução que ele estava procurando.
A descoberta deu-se através do uso da planchette, instrumento equipado com um lápis que se move - supostamente guiado por espiritos - na prancheta, escrevendo mensagens pela mão de um assistente. Um suposto espirito que se identificou como Marie Lairre contou que havia sido freira na França do século XVII, mas que deixará o habito para casar-se com Henry Waldegrave, membro da abastada família cuja casa senhorial se erguerá um dia no ponto em que agora existia a residência do pastor. No solar, tempos depois, ela teria sido estrangulada pelo marido que esconderá seus restos no porão.
A historia parecia explicar o fenômeno mais instigante daquele lugar. A angustiada figura da freira e as mensagens escritas podiam agora ser interpretadas como indícios de que a mulher fora enterrada em solo não-consagrado, estando por isso condenada a vagar perpetuamente, em uma busca vã pela paz final.
Em março de 1938, cinco meses após a mensagem de Marie Lairre, consta que outro espirito se manifestou sobre o assunto, prognosticando que um incêndio iria ocorrer naquela noite e que a prova do assassinato da freira seria encontrada nas ruínas.
Borley não ardeu naquela noite. Mas, onze meses depois, o novo proprietário, o capitao W. G. Gregson, estava desempacotando seus livros quando uma lamparina no saguão caiu, dando ínicio a um incêndio. O fogo alastrou-se rapidamente e a antiga casa paroquial de Borley foi destruída, dando finalmente a Price uma oportunidade para procurar sob a terra alguma prova fisica que servisse para explicar a assombração.
Por varias razões, ele só pediu licença a Gregson para escavar em 1943. "Procurem sob o chão de tijolos, no porão", implorara uma das mensagens dos espíritos; após um só dia de escavações, a equipe de Price descobriu alguns ossos frágeis que acabaram sendo identificados como pertencentes a uma mulher jovem - para Price, a evidencia de que havia algo verdadeiro naquela historia da freira assassinada.
Aparentemente, um enterro cristão para os ossos deu ao fantasma da casa paroquial de Borley o sossego que ele tanto buscava havia tempos. Nunca mais ouviu-se falar de assombrações na casa em ruínas, que foi finalmente demolida em 1944.
Vicariato de Borley - A casa mais assombrada de Inglaterra
Em 1892 o filho do vigário, Harry Bull, tomou posse do vicariato, no qual permaneceu até 1927. Nesse período foi visto entre os arbustos um homem decapitado; apareceu um coche fantasma; uma cozinheira declarou que uma porta fechada todas as noites aparecia aberta todas as manhãs, e quatro irmãs de Bull viram simultaneamente uma jovem freira que desapareceu subitamente.
Em 1929 os poltergeister, os espíritos travessos que fazem os objetos deslocar-se, foram pela primeira vez notados em Borley. Entre os objetos que inexplicavelmente apareciam, contavam-se seixos, chaves e medalhas, uma com a cabeça de Santo Inácio gravada e a palavra "Roma" escrita sob desenho de 2 figuras humanas.
Entre 1930 e 1935 o vicariato esteve entregue ao Revendendo Lionel Algernon Foyster, sua mulher Marianne, sua filha Adelaide. Apareceram mensagens rabiscadas nas paredes e pedaços de papel; freqüentemente ouviam-se passos. Uma voz chamou Marianne pelo seu nome e um atacante invisível assaltou-a - a primeira vez em que alguém foi molestado. Sentiam-se também aromas estranhos, especialmente de alfazema. Um dos rabiscos nas paredes, na sua maior parte incompreensíveis, parecia dizer "Marianne, vai buscar auxílio".
Edwin Whitehouse, que mais tarde se tornou um monge beneditino, passou algumas dias no vicariato com seu tio e sua tia em 1931. Numa ocasião, declarou-se fogo num quarto desabitado. Enquanto as chamas eram apagadas, caiu no chão uma pedra do tamanho de ovo de galinha. Mais tarde, quando o vigário fazia um exorcismo no seu quarto, Edwin e sua tia foram atingidas por pedras.
Investigações de caráter cientifico
Em 1937 Harry Price, fundador do Laboratório Nacional de Pesquisas Psíquicas da Grã-Bretanha, publicou um anúncio no Times pedindo pessoas com disponibilidade de tempo, inteligentes, intrépidas, com sentido crítico e sem preconceitos, para participarem num programa de observação. De mais de 200 candidatos, escolheu 40.
Ellice Howe, um licenciado de Oxford, viu objetos moverem-se. Outros relataram ruídos estranhos. O candidato A. B. Campbell, da equipa Brain Trust da B. B. C. (pequeno grupo de eruditos, peritos, etc., que se encontram para discutir vários assuntos na Rádio), foi atingido por um pedaço de sabão num quarto fechado. O filósofo Dr. C. E. M. Joad, outro membro da equipe, declarou que um termômetro acusara subitamente uma descida inexplicável de 10º C.
O vicariato ardeu completamente em 1939. Na noite do incêndio, foram vistas a abandonar o edifício 2 figuras misteriosas - embora se soubesse que a única pessoa que nele se encontrava era o novo proprietário, o capitão Gregson. Várias pessoas viram a figura de uma jovem a uma janela do andar superior.
Mas os fenômenos prosseguiram ainda.
Um motorista, Herbert Mayes, ouviu o tropel de patas de cavalo aproximar-se e passar por ele nas proximidades do vicariato, onde nada se via.
Durante o black-out em tempo de guerra, as milícias da Defesa Civil foram vezes convocados devido às luzes que se viam nas janelas.
Em 1943 procedeu-se a escavações no local. A profundidade de cerca de 90 cm, os operários encontraram fragmentos da caveira de uma mulher e brincos com símbolos religiosos. Até 1961, lanternas, luzes de faróis de automóveis e flashes de máquinas fotográficas revelaram-se insuficientes para concluir a investigação.
Outros pesquisadores do mistério do vicariato de Borley souberam, através de sessões espíritas, que, no século XVII, uma jovem freira francesa, Marie Lairre, fora induzida a abandonar seu convento, no Havre, para casar com um dos Waldegraves de Borley, uma família de proprietários rurais. Obtiveram a indicação de que ela fora estrangulada pelo noivo no dia 17 de Maio do ano de 1667, num edifico que se erguia no local onde foi posteriormente construído o vicariato.
O seu corpo, segundo as mensagens espíritas, fora enterrado na adega.
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